Por Gisele Magalhães – Artista Local, ex-conselheira de Cultura e uma das vozes que escreveu os primeiros editais da nossa cidade


Há uma música da Marisa Monte que não sai da minha cabeça. Ela canta: "Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza". E eu, andando pelas ruas de Poá, me pergunto: será que copiaram a letra? Porque aqui, o cinza ganhou nome próprio. Ele se chama azul.


Um azul que não é céu. Não é mar. Não é aquarela. É um azul de caneta esferográfica que assina ordens. Um azul de tinta látex comprada em lote, sem consultar quem entende de cor. Um azul que não conversa, não abraça e não conta história.


A pista de skate que virou tela vazia


Quem já pisou na pista de skate de Poá sabe: ela não era só concreto. Era um livro aberto. Cada grafite, cada rabisco, cada assinatura de spray era um capítulo escrito por jovens que encontraram ali a única parede que os ouvia. Eram letras, dragões, pessoas de cabelo colorido – tudo pintado pelas mãos da juventude, enquanto a prefeitura abandonava o espaço. A pista era deles. A pista era delas. A pista era nossa.


Mas um dia, chegaram os pincéis do esquecimento. E a pista amanheceu inteiramente azul.


Azul como um silêncio forçado. Azul como uma resposta que ninguém pediu. O que antes era encontro virou vazio. E a juventude perdeu o endereço da sua própria voz.


A Praça da Juventude: o segundo golpe


Não bastasse a pista original, a Praça da Juventude também foi atingida. Ali, outra pista de skate – planejada de forma tão malfeita que mal dava para fazer manobras – ainda guardava grafites que traziam vida ao concreto. Não eram muitos, mas eram necessários. Eram um aceno. Um respiro.


Também foram apagados. Também viraram azul.


É como se, sistematicamente, estivessem dizendo: "aqui, a juventude não pinta. Aqui, a juventude não fala. Aqui, a juventude só obedece."


O Teatro Municipal: agora, uma névoa branca


E o mais doloroso de todos: o Teatro Municipal.


Ali, no nosso teatro – esse que um dia foi elefante branco e depois ganhou vida nas mãos de artistas locais através de um edital histórico – havia uma obra que emocionava. Um grafite belíssimo, com o busto de uma mulher que lembrava uma estátua de cimento. Uma imagem forte, potente, que transcendia o muro. Tão impactante que artistas de outras cidades vinham a Poá apenas para apreciá-la.


Ela era um ponto de encontro. Um orgulho. Uma prova de que a arte daqui tinha peso.


Agora, ela está sendo coberta por uma névoa branca. Não uma tinta com alma. Não uma nova obra. Uma névoa. Um nada. Um apagamento silencioso e covarde.


O que vai no lugar? A resposta é o pior dos silêncios: nada.


A estética burocrática do vazio


Porque a estética burocrática do vazio não se preocupa em criar. Ela só se preocupa em apagar. E apagar, meus amigos, é mais fácil do que conversar. É mais barato do que ouvir. É mais rápido do que construir.


Não há curadoria. Não há diálogo. Não há convite. Há apenas uma canetada. E a cidade vai ficando cinza, azul, branca – sem cor, sem história, sem alma.


A arte urbana não é crime. É memória.


Eu, Gisele, que ajudei a escrever os primeiros editais de cultura dessa cidade, que vi o setor cultural se organizar durante a pandemia para que a Lei Aldir Blanc chegasse às mãos certas, eu vejo com tristeza o que estão fazendo com a nossa história.


A arte urbana, ao contrário do que pensam, não é para sempre. Ela respira. Ela se transforma. Ela se renova. Um grafite de hoje pode ser coberto amanhã por outro – mas isso é um diálogo. É a cidade falando com ela mesma. O que não pode é ser substituído por um nada azul ou uma névoa branca.


Isso não é embelezamento. Isso é apagamento. É dizer que nossa juventude não importa. Que nossos artistas não criam. Que nossa cultura não merece parede.


Poá, acorda!


Poá já foi chamada de joia. E joia não se esconde. Joia se mostra. Joia brilha. Joia tem cor.


Eu convido cada um de vocês – skatistas, poetas, pintores, mães, professores, comerciantes, jovens, velhos – a olharem para essas paredes azuis e brancas e perguntarem: "O que você apagou de mim?"


A cidade não é só calçada e poste. A cidade é o que a gente coloca nela. E se deixarmos eles pintarem tudo de azul e branco, vamos acordar um dia sem saber quem fomos.


Vamos pintar por cima. Com versos. Com memória. Com gritos. Com tinta. Com vida.


A arte urbana é o testemunho de que a cidade é viva. E a vida, meus amigos, nunca foi azul.



#PoáPedeCor #ArteUrbanaÉCultura #ApagaramTudoPintaramDeAzul #MemóriaQueNãoSeApaga #CulturaNãoSeApaga


Gisele Magalhães – Artista, cidadã, voz.

@profgisellemagalhaes_cultura