Diante desse cenário, é preciso reconhecer e elogiar o trabalho firme da Polícia Federal e do Ministério Público, cujas operações têm revelado, com eficiência e coragem institucional, o grau de corrupção e impunidade em que ainda vivemos. A cada nova investigação, prisões, apreensões de documentos, valores e materiais ilícitos demonstram que o país foi profundamente atingido por práticas criminosas sofisticadas, muitas vezes enraizadas em setores estratégicos da vida pública e privada.
Empresários de alto bordo, agentes públicos e personagens de grande influência são frequentemente flagrados integrando esquemas criminosos, espalhando a lama da corrupção por todos os quadrantes nacionais e até para além das fronteiras do país. Não sabemos com precisão a real dimensão desses crimes, mas o número de prisões e apreensões demonstra que as operações policiais têm se tornado cada vez mais amplas e frequentes. Em muitas delas, são mobilizados 100, 200, 300 ou até mais homens e mulheres encarregados de cumprir mandados, efetuar prisões, realizar buscas e apreender elementos fundamentais aos processos. É um quadro, no mínimo, assustador.
O caso do Banco Master, tido como um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil atual, é exemplar e ainda deverá render muitos sobressaltos, principalmente se o seu ex-controlador, Daniel Vorcaro — hoje preso em Brasília — conseguir concretizar o objetivo de delatar tudo e, com isso, obter algum alívio em suas penas. São centenas de ilícitos que, se devidamente apurados, poderão retirar de circulação muitos indivíduos comprometidos em diferentes pontos do território nacional.
O país se escandaliza há décadas. Mas o quadro tornou-se gravíssimo quando a Operação Lava Jato prendeu mais de uma centena de figurões do governo, do meio empresarial e de setores afins, sob a acusação de terem delinquido, chegando inclusive à devolução de elevadas somas de dinheiro público retiradas dos cofres da União, dos Estados e dos municípios mediante fraude. Foi, contudo, altamente frustrante o processo que levou à invalidação de parte da Lava Jato e à libertação de alguns de seus principais envolvidos.
Deu no que deu. Hoje, somos atropelados todos os dias por malfeitos cometidos em diferentes pontos do território nacional. São fatos tão graves que levaram os Estados Unidos — tradicional parceiro do Brasil há mais de dois séculos a voltar sua artilharia jurídica, política e até militar em direção ao país e aos brasileiros. Não será de estranhar se, em breve, os mesmos meios de comunicação que hoje nos informam sobre crimes de colarinho branco ou de facções cometidos em território nacional também passem a noticiar medidas externas mais duras diante daquilo que o Brasil negligenciou enfrentar durante as três ou quatro décadas em que viu o crime organizado nascer, crescer e se consolidar em pontos nevrálgicos do nosso mapa.
A mais nova preocupação está na falta de entendimento entre o Brasil e os Estados Unidos, maior força política, econômica e militar do planeta. Os titulares dos Três Poderes brasileiros fariam melhor se, em vez de apenas criticar o presidente e membros do governo norte-americano, buscassem canais de diálogo e possibilidades de cooperação para enfrentar, de forma conjunta e responsável, o processo de depuração nacional que o país não conseguiu realizar plenamente com seus próprios recursos.
Se houvesse entendimento, os resultados poderiam ser melhores. Mas é provável que as farpas já trocadas tenham tornado mais difíceis as possibilidades de aproximação. Lamentável.
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves - dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo).