Quase 9 milhões das aproximadamente 25 milhões de empresas ativas no Brasil estão negativadas. Em 2025, cerca de 2.500 empresas entraram em recuperação judicial, número recorde na economia nacional. A dívida média de cada CNPJ negativado alcança R$ 23 mil. Já as empresas de capital aberto acumulam bilhões de reais em resultados negativos, conforme levantamentos divulgados por especialistas do setor.
Diante desse quadro, o governo precisa adotar providências sérias e verdadeiramente comprometidas com o país. É indispensável enfrentar os problemas internos que estão levando empresários brasileiros a transferir seus investimentos, sua produção e seu capital para outras nações. A situação é grave e não será resolvida com discursos midiáticos, disputas ideológicas ou manifestações destinadas apenas a produzir repercussão política.
Entre as empresas ameaçadas de quebra estão corporações que, durante muito tempo, tiveram posição relevante na economia brasileira. Outras 232 empresas, buscando escapar da crise, já teriam transferido suas operações para o Paraguai, aproveitando o ambiente econômico mais favorável existente no país vizinho.
Um dos principais motivos apontados para essa transferência é a carga tributária. Enquanto no Paraguai a tributação sobre determinadas atividades empresariais gira em torno de 12%, no Brasil os tributos incidentes sobre a produção, somados a outros encargos, podem representar parcela expressiva do custo das empresas. Como agravante, a reforma tributária ainda gera dúvidas quanto aos seus efeitos sobre diferentes setores da economia nos próximos meses e anos.
O êxodo de empresas brasileiras em direção ao Paraguai é crescente. Além da menor tributação, os empresários encontram energia elétrica, terrenos e aluguéis mais baratos. Esse cenário favorável estimulou até mesmo o surgimento de empresas especializadas em assessorar a instalação e a transferência de negócios e de seus proprietários para o país vizinho.
A situação guarda semelhanças com o movimento ocorrido décadas atrás, quando empresários brasileiros transferiram parte de sua produção para a China como forma de fugir da inflação, da burocracia e dos elevados custos existentes no Brasil. Muitas dessas operações eram realizadas de maneira discreta, enquanto as empresas mantinham no território brasileiro a comercialização dos produtos.
Além do Paraguai, outros países têm se mostrado atrativos para empreendedores que enfrentam dificuldades no Brasil. Uruguai, Argentina, Panamá, Estados Unidos, Portugal, Espanha e algumas nações africanas podem oferecer oportunidades, dependendo da natureza de cada atividade econômica.
Em muitos casos, as empresas transferem a produção e os empregos para outros países, mas continuam direcionando seus produtos ao mercado consumidor brasileiro. Esse movimento pode provocar desequilíbrios, pois o Brasil perde investimentos, arrecadação, tecnologia e postos de trabalho, enquanto permanece como destino final das mercadorias produzidas no exterior.
A economia brasileira também enfrenta o crescimento da dívida pública e a ampliação dos gastos governamentais. Ao mesmo tempo, permanecem distorções no serviço público, inclusive remunerações que ultrapassam o teto constitucional por meio de benefícios, adicionais e outras verbas.
Também chama a atenção a situação de Estados nos quais o número de beneficiários de programas sociais supera o de trabalhadores com carteira assinada. Os programas de transferência de renda são importantes para proteger famílias em situação de vulnerabilidade, mas não podem substituir políticas capazes de gerar empregos, incentivar a qualificação profissional e promover desenvolvimento econômico permanente.
Nesse contexto, é necessário discutir com seriedade o modelo político brasileiro, inclusive a reeleição para os cargos do Poder Executivo. Em períodos eleitorais, existe o risco de governantes priorizarem medidas de efeito imediato, destinadas à obtenção de apoio popular, em vez de realizarem investimentos estruturais no desenvolvimento do país e na melhoria duradoura das condições de vida da população.
O dever do Estado não deve se limitar à distribuição de benefícios. É preciso criar oportunidades para que as pessoas possam trabalhar, empreender, produzir e conquistar autonomia financeira. A assistência social deve servir como proteção temporária e instrumento de inclusão, não como substituta de uma política consistente de geração de emprego e renda.
O Brasil vive um período eleitoral importante, no qual candidatos procuram apresentar suas propostas e conquistar a confiança da população. Ao mesmo tempo, o país enfrenta tensões econômicas e diplomáticas, inclusive no relacionamento com os Estados Unidos e nas discussões provocadas pela política adotada pelo presidente Donald Trump.
Essas disputas não podem afastar o debate dos verdadeiros problemas nacionais. O eleitor deve analisar propostas, trajetórias e compromissos, escolhendo os candidatos que melhor representem seus interesses e as necessidades da sociedade, sem se deixar conduzir exclusivamente por discursos ideológicos, polarizações ou promessas eleitorais.
Para interromper a saída de empresas, o Brasil precisa reduzir a burocracia, oferecer segurança jurídica, tornar o sistema tributário mais simples, controlar os gastos públicos, melhorar a infraestrutura, diminuir os custos de produção e criar um ambiente favorável ao investimento.
Mais do que discursos, o país necessita de decisões responsáveis e de um projeto econômico de longo prazo. Cada empresa que deixa o Brasil leva consigo investimentos, empregos, arrecadação e oportunidades. O problema deve ser enfrentado antes que a transferência de negócios para o exterior se torne um movimento ainda maior e difícil de reverter.
O voto deve ser exercido com consciência e responsabilidade. Quando utilizado apenas por impulso, revolta, interesse imediato ou influência de discursos extremistas, ele pode produzir consequências negativas para toda a sociedade. Eleitor, não transforme o seu voto em uma arma, pois a vítima poderá ser você, sua família e o próprio futuro do país.
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves - dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)